#38

Há uma semana que estou de férias e há cinco dias que estamos em Sevilha. Bom demais, não dá vontade nenhuma de voltar para casa. Depois penso que o lugar onde moramos não me faz sentir em casa e que a vontade de viver de novo na minha Lisboa aumenta quando passo férias numa cidade como esta. Basicamente, não gosto da vida no campo e quero voltar para a cidade. A ver vamos, sobretudo porque o homem gosta muito de Lisboa e já diz que Lisboa é mais bonita e melhor que o Porto – 😱 juro que nunca pensei ouvi-lo dizer tal coisa!

Mas neste momento as férias são exactamente para não pensar e apenas desfrutar da gastronomia, dos passeios, da piscina e deste calor insuportável 😂😂😂

#37

Nada tenho contra as redes sociais, muito pelo contrário. Aproximam-nos, permitem-nos até conhecer pessoas novas. Mantêm-nos actualizados do que se passa no resto do mundo e, se usadas de forma correcta, podem ser fonte de conhecimento e aprendizagem.

Mas uma das coisas que mais crítico nas pessoas que usam redes sociais como o Facebook e o Instagram é a forma despreendida e banal com que fazem longas declarações de amor à cara metade. Longos e ridículos textos de agradecimento a cada aniversário, até de casamento ou dos filhos. Textos porque o final do ano lectivo terminou – quando a criança só tem pouco mais de um ano de idade. Textos porque o final do ano lectivo terminou – que se repetem ano após ano, sejam alunos ou professores. Ou porque se mudou de casa. Ou porque se está grávida – e aqui são palavras de fazer chorar as pedras da calçada, acompanhadas por actualizações mensais.

Enfim, seja o que for é motivo para encontrarmos autênticos Fernandos Pessoas por esse Facebook/Instagram afora. E eu confesso que não posso compreender esta necessidade de algo que, para mim, parece uma chamada de atenção. Esta busca por likes, pelos comentários acompanhados de corações infinitos, este show off ridículo de não se preservar projectos de vida. Pergunto-me para onde vão estas histórias de vida, questiono se na intimidade também há todo este sentimentalismo exagerado, se as palavras são ditas e sentidas, se há os abraços, os beijos e o carinho.

Já não se fazem relações como antigamente, já não se vive para ser feliz, mas mais para parecer. Já não existem as frases ditas e sentidas, as mensagens de amor que nem às paredes confessamos e os olhos já não são o espelho da alma. A vida tornou-se um espectáculo onde vamos ao cinema sem pagarmos bilhete.

#36

Estou urgentemente a precisar de férias, mas ainda me restam mais duas semanas de trabalho intenso pela frente. Fisicamente as minhas costas já não aguentam tantas horas em pé e isso significa ter que marcar – agora só segunda-feira – uma consulta de fisioterapia, perceber o que se passa e o porquê destas dores. Tenho tentado aliviar com massagens localizadas, mas as contraturas só vão desaparecer quando estiver sem fazer esforços físicos e movimentos repetidos. Sessões de banhos quentes, botijas de água aquecidas e Voltaren têm sido recorrentes esta semana. Sinto-me uma daquelas velhotas cheias de dores e marrecas, portanto vai ser bonito quando lá chegar 😂

Mas duas semanas passam num instante e os fins-de-semana ajudam a descomprimir, até porque estas dores não me impedem de fazer a minha vida normalmente. Agora os treinos no ginásio estão a ser substituídos por hidroginástica e natação e acredito que a fisioterapia me vá ajudar – é torcer para conseguir uma primeira consulta nos próximos dias.

Felizmente nada disto me impede de sonhar com as férias este ano: uma semana em Lisboa a matar saudades dos meus e a fazer praia e uma semana em Sevilha num hotel fantástico, a passear e a namorar muito. Também mereço, portanto haja saudinha para chegar lá em bom estado 🙏 😂

#35

Este blog tornou-se uma espécie de diário pessoal. Ainda tentei introduzir outros tópicos, escrever sobre temas diferentes, mas chego à conclusão de que este não é o espaço adequado. E isso não tem mal nenhum, ainda que por vezes fique reticente em escrever aqui determinados pensamentos – mesmo as pessoas que me lêem não me conhecendo pessoalmente. Mas é em textos como o anterior, em que me apercebo que andam por aí pessoas que também passam ou passaram por situações semelhantes às minhas, que sinto que escrever desta forma tão intimista me alivia e me traz a sensação de que não estou só nas minhas batalhas.

Se também podia falar com as minhas pessoas ao invés de escrever num blog? Claro que sim e, geralmente, faço-o. Mas – e porque há sempre um mas – quando falamos tão abertamente corremos o risco de julgamentos, preconceitos, más interpretações e juízos de valor. E é por isso que, para mim, faz todo o sentido manter este espaço só meu – ainda que seja lido por terceiros. Porque lá fora, onde tudo acontece, é mais seguro colocarmos uma certa dose de camuflagem e omitirmos alguns passos que damos. Não se trata de cinismo ou hipocrisia, mas de protegermos a nossa sanidade mental e de cuidarmos daquilo que é efectivamente nosso: a vida.

#34

Não sinto qualquer obrigação de me dar com a família do homem. Quando tomei a decisão de me mudar para a terra dele foi, precisamente, para partilhar a minha vida com ele, para que juntos tivéssemos a nossa própria família. Claro que quando vejo alguém da família dele, cumprimento e sou educada. Claro que há familiares dele com quem tenho mais afinidade. Mas daí a ter de estar presente em todos os convívios que se lembram de organizar, vai um grande passo. Daí a ter de ir no dia a dia a casa da mãe dele, vai um grande passo. Daí a ter de gostar que ela lhe ligue todos os dias ou que ele ande lá sempre…vai um passo gigantesco! 

Há muitas coisas que não gosto: os mexericos, o diz que disse, a mãe que lhe dá mimo a mais ou lhe liga só porque sim, as falsidades, o falar mal pelas costas, o vivermos a menos de 5 minutos da mãe e dos irmãos dele… Não, não gosto. E é por estas e outras que estou desejosa para conseguirmos comprar uma casa e sairmos desta zona. Porque se há aspecto da minha vida que valorizo muito é a minha liberdade e a minha independência. 

Se dou valor à família? Claro que dou, daí não querer esperar muito tempo para engravidar depois de estarmos instalados na nossa casa. Porque quero que tenhamos as nossas tradições e os nossos hábitos. Os nossos amigos e os nossos convívios. Mas, para mim, a minha família são as pessoas que eu escolho para fazerem parte dela, são as pessoas que eu quero que frequentem a minha casa e façam parte do meu dia a dia. Também eu tenho uma família grande e não convívio com todos, simplesmente porque há pessoas pelas quais não sinto afinidade. 

Provavelmente quem ler este texto irá achar que estou a ser demasiado bruta para com estas pessoas que nunca me fizeram mal nenhum. A verdade é que, por vezes, também eu me questiono desta minha maneira de ser. Mas depois chego à conclusão que prefiro ter poucas pessoas na minha vida, mas saber que as que tenho são em qualidade suficiente para me sentir preenchida.

#33

É inevitável não ficar indiferente à tragédia que se está a dar em Pedrógão Grande e localidades ao redor. É muita tristeza a morte destas 61 pessoas – um número que pode subir a qualquer momento. A quantidade de feridos, as quatro frentes ainda activas, os 700 bombeiros portugueses a combater estes fogos, a exaustão, o cansaço psicológico, a dor de quem perde familiares, casas e bens pessoais. É uma angústia pensar que ainda há aldeias onde os meios de ajuda não conseguem chegar, que as comunicações estão cortadas porque os postes de electricidade arderam todos, que aquelas pessoas – civis e bombeiros – pedem água, leite, fruta, barras energéticas… Arrepia-me imaginar a quantidade de pessoas mortas carbonizadas nos automóveis, as 4 crianças que já estão confirmadas que morreram, aqueles pais que casaram, foram em lua de mel e deixaram o filho com familiares – o desespero de arranjarem um voo de regresso para irem buscar o seu menino à morgue. Aquele militar da GNR que não conteve as lágrimas enquanto aguarda pelos colegas – e tem na frente dele um corpo no alcatrão que o fogo conseguiu levar a vida. O homem que perdeu 11 pessoas da sua aldeia – um terço desta terra ficou mais pobre.

Não dá para dormir, comer, passear, pensar no amanhã. Hoje e enquanto a minha memória perdurar, hoje e enquanto esta situação durar, os meus pensamentos e o meu coração não estão aqui, mas lá, com eles.