Desabafos, Família

#15

Quando os meus pais se divorciaram já eu era adulta e andava na faculdade. Fiquei satisfeita porque dão-se muito melhor separados do que juntos e já o deviam ter feito muitos anos antes, mas eu sei que as circunstâncias da vida também tiveram a sua influência. 

O meu pai conheceu outra pessoa, casou novamente, voltou a ser pai e, por motivos profissionais, decidiu emigrar, viver no país da minha madrasta. Fico feliz por ele porque sei que era um sonho sair daqui, ir para um ambiente de vida e de cultura diferente, onde o ritmo de vida, o clima e a língua são diferentes. Já lá estive algumas vezes e é um país perfeito para férias, mas é demasiado longe para mim, para fazer vida lá.

Isto tudo para dizer que apesar de respeitar o seu sonho, ficou uma dor cá dentro de ele ter ido embora. Porque esta semana o meu irmão fez 10 anos e eu não estive lá para os nossos abraços apertados. Porque não estou a acompanhar o crescimento dele, não estou lá nos momentos menos bons, não o ajudo nos exames, não sigo os torneios de natação… Eu faço-me de indiferente e guardo isto para mim, mas é muito injusto ele ter ido embora e ter levado alguém tão importante para mim, aquela pessoa para quem eu devia estar sempre presente. A distância impede o contacto físico, a diferença horária impede que se fale com regularidade. Por outro lado, ele também devia estar aqui para mim, não é por ser adulta que já não preciso dele.

São sentimentos muito contraditórios porque, apesar de tudo, sou parecida com ele. Também eu sigo os meus sonhos e vou para onde tenho que ir para ser mais feliz. E isso assusta porque não quero esquecer os que gostam de mim, não quero estar longe de quem se preocupa comigo, não quero desiludir nem magoar. Nestas alturas o amor que temos uns pelos outros devia ser suficiente. Mas a verdade é que não chega.

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Desabafos

#14

Por vezes parece que não mudei de cidade mas sim de país e fui para um em que os homens mandam e as mulheres calou…

Vim de Lisboa para uma santa terrinha a alguns kms do Porto. E enquanto que numa fase inicial não saía muito nem convivia com outras pessoas, agora que já conheço bem esta zona e arranjei emprego, sou obrigada a lidar com as diferenças – enormes – que encontro daqui para Lisboa. É certo que vivo numa localidade onde todos se conhecem e meio mundo é parente de outro meio mundo. É certo que nestas terras as notícias voam e as pessoas – sobretudo as mulheres – adoram saber da vida alheia. É certo que nunca, em 33 anos de vida, ouvi tantas asneiras ditas da boca pra fora como aqui – e, mais uma vez, as mulheres são piores que os homens nesse aspecto. É certo que aqui as mulheres não saem sozinhas (ou vão com os maridos ou com familiares) porque parece mal irem ao café ou ao shopping sozinhas – aos olhos das outras são umas coitadas.

Até aqui tudo bem, dá para aguentar. Mas ver de perto a forma como estas crianças crescem a pensar é coisa para me enervar! As mulheres são educadas para servir e os homens não mexem um cú em casa! Vivo rodeada de mulheres que, além de terem o seu emprego, ainda vão trabalhar para casa: são os filhos e as tarefas domésticas. Os maridos pouco ou nada fazem, simplesmente porque aqui ainda existe a mentalidade de que a única função do homem é trazer o ordenado para casa. Tudo muito bonito se as mulheres também não o fizessem!

Isto é demais para mim, que venho de uma família onde os homens são ensinados a fazer tudo em casa; que tenho um pai que faz qualquer tarefa doméstica melhor que muita mulher; que tenho um irmão pequeno que sabe que é preciso arrumar o quarto depois de brincar ou que não deixa a casa de banho para a mãe limpar depois do banho.

Dizem-me que é assim, que já são hábitos muito enraizados e que Lisboa é o estrangeiro. Desculpem?!

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Desabafos, Vida a dois

#13

Já aqui escrevi que moramos numa moradia em que na parte de baixo, numa casa independente, mora a sogra de um dos irmãos do meu homem. E é precisamente por ser quem é que eu tenho que aguentar muitas situações sem chamar a mulher à atenção. 

Não entendo onde está a justiça nisto e não entendo como é que ele fica calado. Parece que tem medo que depois o irmão se aborreça com ele, quando somos nós que estamos a levar com coisas que não são normais numa senhoria. Uma pessoa normal já teria falado com a mulher ou até com o próprio irmão. Mas não, ele diz-me que estamos quase a sair daqui e que, por isso, não vale a pena nos chatearmos agora.

Eu não fui educada assim, não suporto falsidade e injustiças. Não se mete na vida alheia nem se mexe no que não é nosso. Para mim isto são regras de vida simples. Na minha família podemos discutir uns com os outros, mas não somos hipócritas nem todos sorrisos só para parecer bem. As coisas são ditas pela frente e ninguém tem medo de falar.

Aqui, não sei se é desta terra, todos cuscam meio mundo, todos falam mal pelas costas, todos fingem ser coisas que não são. Se vivem bem assim é com eles, mas não posso permitir que se metam na minha vida. Infelizmente, por causa dele, tenho que aguentar estas situações calada e ir aos convívios de família onde todos são muito amigos – amigos da onça!

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