Amizades, Desabafos, Família, Vida a dois

#34

Não sinto qualquer obrigação de me dar com a família do homem. Quando tomei a decisão de me mudar para a terra dele foi, precisamente, para partilhar a minha vida com ele, para que juntos tivéssemos a nossa própria família. Claro que quando vejo alguém da família dele, cumprimento e sou educada. Claro que há familiares dele com quem tenho mais afinidade. Mas daí a ter de estar presente em todos os convívios que se lembram de organizar, vai um grande passo. Daí a ter de ir no dia a dia a casa da mãe dele, vai um grande passo. Daí a ter de gostar que ela lhe ligue todos os dias ou que ele ande lá sempre…vai um passo gigantesco! 

Há muitas coisas que não gosto: os mexericos, o diz que disse, a mãe que lhe dá mimo a mais ou lhe liga só porque sim, as falsidades, o falar mal pelas costas, o vivermos a menos de 5 minutos da mãe e dos irmãos dele… Não, não gosto. E é por estas e outras que estou desejosa para conseguirmos comprar uma casa e sairmos desta zona. Porque se há aspecto da minha vida que valorizo muito é a minha liberdade e a minha independência. 

Se dou valor à família? Claro que dou, daí não querer esperar muito tempo para engravidar depois de estarmos instalados na nossa casa. Porque quero que tenhamos as nossas tradições e os nossos hábitos. Os nossos amigos e os nossos convívios. Mas, para mim, a minha família são as pessoas que eu escolho para fazerem parte dela, são as pessoas que eu quero que frequentem a minha casa e façam parte do meu dia a dia. Também eu tenho uma família grande e não convívio com todos, simplesmente porque há pessoas pelas quais não sinto afinidade. 

Provavelmente quem ler este texto irá achar que estou a ser demasiado bruta para com estas pessoas que nunca me fizeram mal nenhum. A verdade é que, por vezes, também eu me questiono desta minha maneira de ser. Mas depois chego à conclusão que prefiro ter poucas pessoas na minha vida, mas saber que as que tenho são em qualidade suficiente para me sentir preenchida.

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Desabafos

#33

É inevitável não ficar indiferente à tragédia que se está a dar em Pedrógão Grande e localidades ao redor. É muita tristeza a morte destas 61 pessoas – um número que pode subir a qualquer momento. A quantidade de feridos, as quatro frentes ainda activas, os 700 bombeiros portugueses a combater estes fogos, a exaustão, o cansaço psicológico, a dor de quem perde familiares, casas e bens pessoais. É uma angústia pensar que ainda há aldeias onde os meios de ajuda não conseguem chegar, que as comunicações estão cortadas porque os postes de electricidade arderam todos, que aquelas pessoas – civis e bombeiros – pedem água, leite, fruta, barras energéticas… Arrepia-me imaginar a quantidade de pessoas mortas carbonizadas nos automóveis, as 4 crianças que já estão confirmadas que morreram, aqueles pais que casaram, foram em lua de mel e deixaram o filho com familiares – o desespero de arranjarem um voo de regresso para irem buscar o seu menino à morgue. Aquele militar da GNR que não conteve as lágrimas enquanto aguarda pelos colegas – e tem na frente dele um corpo no alcatrão que o fogo conseguiu levar a vida. O homem que perdeu 11 pessoas da sua aldeia – um terço desta terra ficou mais pobre.

Não dá para dormir, comer, passear, pensar no amanhã. Hoje e enquanto a minha memória perdurar, hoje e enquanto esta situação durar, os meus pensamentos e o meu coração não estão aqui, mas lá, com eles.

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