Desabafos

#33

É inevitável não ficar indiferente à tragédia que se está a dar em Pedrógão Grande e localidades ao redor. É muita tristeza a morte destas 61 pessoas – um número que pode subir a qualquer momento. A quantidade de feridos, as quatro frentes ainda activas, os 700 bombeiros portugueses a combater estes fogos, a exaustão, o cansaço psicológico, a dor de quem perde familiares, casas e bens pessoais. É uma angústia pensar que ainda há aldeias onde os meios de ajuda não conseguem chegar, que as comunicações estão cortadas porque os postes de electricidade arderam todos, que aquelas pessoas – civis e bombeiros – pedem água, leite, fruta, barras energéticas… Arrepia-me imaginar a quantidade de pessoas mortas carbonizadas nos automóveis, as 4 crianças que já estão confirmadas que morreram, aqueles pais que casaram, foram em lua de mel e deixaram o filho com familiares – o desespero de arranjarem um voo de regresso para irem buscar o seu menino à morgue. Aquele militar da GNR que não conteve as lágrimas enquanto aguarda pelos colegas – e tem na frente dele um corpo no alcatrão que o fogo conseguiu levar a vida. O homem que perdeu 11 pessoas da sua aldeia – um terço desta terra ficou mais pobre.

Não dá para dormir, comer, passear, pensar no amanhã. Hoje e enquanto a minha memória perdurar, hoje e enquanto esta situação durar, os meus pensamentos e o meu coração não estão aqui, mas lá, com eles.

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